Como era bom ser criança!
Lembro-me bem das tardes na fazenda, correndo pelo jardim de roseiras ao lado da piscina...
Tempo em que eu corria, caía, me machucava, chorava um pouco e voltava a correr sem nem pensar na sensação do cair e machucar novamente...
Lembro-me dizer que não queria crescer, que gente grande tinha muito problema e responsabilidade!
Meu pai ria quando eu falava isso. Que eu ia ser criança pra sempre.
Foi o tempo passando, eu crescendo, envelhecendo, trabalhando e aí estava ela: a dita cuja da responsabilidade!
Esqueci nesse meio tempo de ser criança. Esqueci-me das gargalhadas de cócegas, de correr, de pular...
E hoje, eu vejo que faz falta. Faz falta fazer careta; faz falta colorir; faz falta brincar!
Devia não existir a fase de adulto na vida. A gente devia passar de criança pra senhores e senhorinhas.
Ser adulto é chato. É extressante; entediante.
Quando se cai, e se machuca, fica com medo de cair de novo e a ferida não sarar mais tão rápido...
Quando se é criança tudo é descoberta. Tudo é novo, é mágico.
Um pedaço de pau vira um barco; uma folha, o navegante; a terra vira o mar!
Quando se é adulto não se valoriza isso. Se esquece de inventar e nem se sabe onde quer chegar.
O Pessoa fala que toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe.¹ Eu concordo com ele.
Eu penso que nós adultos nos esquecemos até de amar. De dar aquele abraço sincero de saudade e de dizer que ama.
Quando se é criança parece que é mais fácil amar. Se ama de graça. Se ama simplesmente por existir. Se ama por descobrir no outro um sorriso sincero e afetuoso.
Ah! Eu lembro que gostava de um monte de amigo do meu pai porque eram senhores de sorrisos bonzinhos e engraçados. Eles me achavam sempre a mais bonita e inteligente! Quando se é criança isso tem um valor e tanto! Me lembro ainda que odiava os médicos! Eles diziam que eu era pequena pra minha idade; que era errado eu saber ler e escrever tão cedo, etc. Eles viam erro onde era apenas o tempo agindo.
Eles eram adultos!
E hoje, adulta, eu vejo que estou igual a eles, vendo defeitos nas coisas do tempo.
Eu fico querendo apressar o tempo mas, como diz o menino Alves: Tempus Fugit!²
Quando eu era criança, queria mesmo é que o tempo parasse...
J. Brasil
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¹PESSOA, Fernando. apud ALVES, Rubem. Desfiz 75 Anos.SP: Papirus, 2009, p.21.
² op. cit. p. 13
Alguém que, além de escrever bem, se dá ao trabalho de fazer referências bibliográficas para um texto postado em um blog? Interessante...
ResponderExcluirTenho este livro "Desfiz 75 anos"...hehehe...show de bola tal escrito! Bom saber que de certa forma acabei te incentivando a blogar. :-)
ResponderExcluirVoltarei mais vezes.
Abração